Boneca de luxo

 

 Diversas vezes escondia-me atrás da minha mãe para não ser alvo de uma sessão fotográfica levada a cabo pelos paparazzi. Não gostava de ser fotografada só por ser a filha da maior estrela do cinema americano dos anos oitenta. Estava farta de ser capa de revistas com títulos do género: “ Novo boato sobre Paris Gomes!” ou então “Filha de Estefânia apanhada a beber com um rapaz num bar!” Esta não foi a vida que escolhi. Foi a minha mãe que ma escolheu quando eu tinha apenas dois anos. Ela podia ser actriz, cantora, modelo porque eu nunca me importaria desde que isso não interferisse de modo algum com os meus sonhos e a minha vida.

Talvez ela pensasse que sendo ela famosa me faria gostar mais dela…porém, fez exactamente o contrário… Fez com que eu cada vez mais me afastasse e tentasse esconder a minha identidade.

Muitas das vezes, as pessoas, pensam que ser uma celebridade é óptimo, que é como um dom quase impossível de realizar. Quem me dera então devolver o dom… para sempre.

A vedeta comum, deve estar sempre rodeada de amigos, mas eu fugia às regras.

No ensino primário, era desprovida de qualquer amizade, até mesmo dos professores. Todos achavam que eu era uma convencida e nem se aproximavam de mim. Chorei, chorei muito nos primeiros dias.

Finalmente quando parecia que tinha arranjado um amigo, descubro que afinal o que ele queria era arranjar umas fotografias minhas comprometedoras para as vender a um fotógrafo, em troca de alguns milhares de euros. A partir daí não confio em mais ninguém… nem em mim própria. Passei a esconder-me em casa, até que aos dezoito anos uma depressão ataca-me ferozmente, obrigando-me a ingerir uma série de medicamentos e frequentar psicólogos. Acho que isso me fez bem, dado que, eles eram os únicos que me percebiam e davam sugestões.

Completei o meu ensino secundário um ano mais tarde, devido ao meu estado de convalescença.

Desisti da minha carreira de actriz de filmes de acção. Troquei todos os papéis de várias histórias, todas as ruas com o meu nome, cancelei todos os meus clubes de fãs só por um sonho: ajudar quem necessita!

A ideia não favoreceu a relação entre a minha mãe e eu. Os nossos laços quebraram-se a partir do momento em que apresentei a minha demissão. Custou-me desiludir a minha mãe, mas não iria deixar que um sonho da minha mãe afectasse o rumo da minha vida. Ela tinha planos para mim desde os meus dois anos. O primeiro filme fez de mim uma actriz promissora, o que despertou o interesse económico da minha mãe. Apenas uma pessoa pouco se preocupava com a minha identidade e esse era o meu avozinho Reinaldo! Apesar do seu estado de saúde não ser dos melhores, foi o único que não pensou em mim como uma fonte de dinheiro, mas como uma neta que precisava de falar com alguém. Senti-me como que uma criança sentada no chão a ouvir todas as histórias que o meu avô já me havia contado em criança, mas isso não me irritava! E a certa altura, uma frase ecoou na pequena sala forrada com papel de parede:

- A tua mãe escolheu o seu caminho. Tu, porém, não tens de escolher o mesmo que ela. Deixa as tuas ideias fluírem e segue-as com paixão!

Uma lágrima gélida caiu na minha mão e apercebi-me que nada me ia parar até concretizar o que eu queria!

Agradecendo a lição, saí da sua pequena casinha na serra e nesse mesmo dia, inscrevi-me na Universidade de Medicina local. Entrei e consegui realizar tudo o que queria, sendo a melhor aluna desse curso com uma média de dezanove valores. Mudei o meu nome e fui para um país onde ninguém poderia reconhecer o meu rosto, deveras conhecido acima do Equador.

Hoje sou feliz! Conto com trinta e dois anos de idade e exerço medicina num hospital onde as mais diversas doenças aparecem, onde os milagres podem acontecer… onde a SIDA é a grande causa de morte. Ninguém me conhece, sou uma pessoa normal e posso sair á rua sem ser bombardeada por jornalistas a quererem saber toda a minha vida privada. Apenas uma pessoa sabe quem sou – a pessoa em quem mais confio neste mundo: Joshua Casey, o meu marido inglês que também exerce medicina no mesmo local que eu! A minha filha, também saberá…talvez quando for maior e perceber que pode ser perigoso divulgar a minha verdadeira identidade.

- Minha boneca de luxo! – Exclama todas as vezes em que nos cruzámos no hospital.

Sorrio timidamente e coro um pouquinho com tal elogio!

Nesta vida onde tudo me agrada, apenas vivemos três: Joshua, Sofia e Raquel (a Raquel sou eu!)

Não vale a pena ser vedeta quando o que queremos é exactamente o contrário.

Perseguir os nossos sonhos, torna-nos invencíveis.

(texto verosímel, feito por Sofia Cardoso, para a Fábrica de Histórias)

publicado por Sophie às 14:09
música: love don´t let me go